“3º Dia da Biodiversidade Brasileira” destaca inovação sustentável e empoderamento de comunidades no combate ao deflorestamento

Rafael Marques_Departamento de Recursos Genéticos do Ministério de Meio Ambiente _crédito da imagem Samuel Allard

Rafael Marques_Departamento de Recursos Genéticos do Ministério de Meio Ambiente _crédito da imagem Samuel Allard

Evento realizado pela L´Oréal Brasil no Museu do Meio Ambiente trouxe iniciativas e estudos acadêmicos para o manejo  responsável da floresta e  reflexões sobre a nova Lei da Biodiversidade

Em meio às comemorações pela Semana do Meio Ambiente, a L´Oréal Brasil realizou, no Museu de Meio Ambiente do Jardim Botânico, no Rio, a terceira edição do “Dia da Biodiversidade Brasileira”. O encontro, que reuniu executivos da empresa de cosméticos, pesquisadores de universidades, representantes de órgãos públicos, empresas e de comunidades fornecedoras de matérias-primas, destacou os desafios e as oportunidades no uso sustentável da biodiversidade, colocando a inovação e o empoderamento de comunidades locais como fundamentais para a manutenção da “floresta em pé”.

O diretor de Pesquisa e Inovação da L’Oréal no Brasil, Blaise Didillon, abriu o evento chamando a atenção para alguns desafios no uso da biodiversidade no Brasil, mostrando que, apesar de sua complexidade, é totalmente possível utilizar essa riqueza como resposta a alguns dilemas globais a que a sociedade vem enfrentando. O diretor ressaltou grandes oportunidades para a inovação sustentável no país através dos compromissos do programa de sustentabilidade global “Compartilhando a Beleza com Todos” (Sharing Beauty With All), em que uma das metas é ter, até 2020, impactos positivos sociais ou ambientais em 100% dos seus novos produtos.

“Estamos fazendo inovação sustentável não somente porque queremos resultados nos negócios, mas porque acreditamos que temos condições de ajudar a transformar a vida das pessoas. Queremos conhecer profundamente a biodiversidade brasileira e engajar nossos parceiros de toda a cadeia produtiva de cosméticos para que olhem para a floresta como um grande ativo de transformação socioambiental”, afirmou Blaise.

Laurent Gilbert, diretor Internacional de Inovação Sustentável da L´Oréal, apresentou uma parceria com uma cooperativa na Bolívia para o fornecimento de quinoa, um projeto do programa de Solidarity Sourcing (Fornecimento Solidário). Pesquisadores da L´Oréal descobriram que a casca da quinoa, anteriormente considerada lixo, contêm propriedades esfoliantes e, desde 2015, o Grupo possui uma parceria para o fornecimento sustentável desse ativo, criando um novo mercado para esses cultivadores e provendo um benefício de longo prazo para 250 famílias.

Representantes da Beraca, empresa fornecedora de ingredientes naturais e orgânicos, mostraram como o uso sustentável da biodiversidade pode proteger a floresta. A empresa apresentou um estudo de impacto da compra de produtos oriundos da coleta de sementes de pracaxi ou de murumuru pelas comunidades. A pesquisa foi aplicada em cinco estados do Norte e Nordeste e demonstra que o fomento da atividade de coleta pode contribuir para a redução de pesca fora de época e o corte ilegal de madeira

“Quanto mais longe dos centros urbanos, menos oportunidades de renda existem. Isso acaba empurrando as pessoas para atividades ilegais, como extração de carvão e atividades de desmatamento. E na educação, a dificuldade é de acesso às escolas. Como criamos oportunidades de renda nesse cenário?”, indaga o representante da Beraca, ressaltando que o desafio da empresa é fazer as pessoas entenderem que trabalhar com biodiversidade não é somente mais rentável, mas os tornam menos dependentes de programas do governo.

Mudanças na Lei de Biodiversidade

Um dos momentos relevantes do encontro foi a discussão em torno do novo marco legal da Lei n. 13.123/2015 e o Decreto n. 8.772, que passou a vigorar em novembro de 2015. Segundo Rafael Marques, do Departamento de Recursos Genéticos do Ministério de Meio Ambiente (MMA), um dos maiores ganhos foi o tempo para a obtenção da chamada Autorização de Acesso, reduzindo o tempo de licença para algumas horas no que antes podia chegar a até três anos.

Ele também destacou a relevância desse tipo de evento como vitrine para outros segmentos. “Se no setor de cosméticos já identificamos esse nível de amadurecimento e viabilidade econômica, integrando respeito às comunidades, certamente conseguiremos nos demais segmentos”, finalizou.

Um exemplo de sucesso do setor veio na fala de Christina Archer, representante da The Body Shop, uma das marcas do Grupo L’Oréal, e que trabalha com 26 fornecedores em 22 países, beneficiando cerca de 300 mil pessoas na sua cadeia de valor. Para Christina, o Comércio Comunitário gera visibilidade na cadeia de valor e inspiração aos consumidores, que estão cada vez mais interessados sobre a rastreabilidade dos produtos.

Valdener Miranda, representante da ASSEMA /COPPALJ, cooperativa que funciona no interior do Maranhão e que é fornecedora de babaçu para marcas como The Body Shop e Elseve, contou o trabalho que vem sendo desenvolvido na cadeia do babaçu. A parceria entre a COPPALJ e The Body Shop tem mais de 20 anos (quase desde a criação da cooperativa) e, ao longo deste período, a relação trouxe à cooperativa uma garantia mínima de compra anual, um preço justo e uma exposição internacional que os permitiu se fortalecer e crescer.

“Nesse comércio justo há uma valorização dos agricultores familiares e, com isso, empoderamento das comunidades e das mulheres”, disse ele, ressaltando que alguns pontos precisam ser garantidos para que o projeto seja sustentável e ter um diferencial em relação ao mercado convencional. No caso da COPPALJ, a certificação orgânica foi fundamental.

Entre outros palestrantes na agenda do “3º Dia da Biodiversidade Brasileira” estavam: Silvia Basso, do FUNTAC, que falou sobre Inovação Sustentável no Acre; Leonardo Calderon, da FIOCRUZ/UNIR, sobre inovações em saúde com Biodiversidade; empresas fornecedoras de matérias primas como a Solvay, Centroflora e Symrise, que apresentaram projetos de fornecimento sustentáveis no mundo, e Rafaela Campostrini, Pesquisadora do Jardim Botânico, que apresentou o trabalho em andamento para recuperar e digitalizar todas as espécies descritas do Brasil e reforçou a necessidade de continuar a identificação de espécies vegetais, especialmente no Norte do país.