[SMAVV] Manejo Integrado do Fogo no Cerrado Tocantinense

Todo ano a cena se repete. Chega o mês de julho e começam as campanhas de prevenção e combate a incêndios, principalmente na região do cerrado, onde temos duas estações no ano: seca e chuvosa. Quando chega a seca, o fogo vem também. O fogo é ruim, é o que aprendemos sempre. Mas e se eu te disser que o fogo pode ser bom? Que podemos usar o fogo ao nosso favor? Tá louca Hellen? Calma que eu explico, tudo depende de “como?”, “quando?” e “onde?”.

Desde a sua “descoberta”, o homem faz uso do fogo para as mais diversas finalidades, principalmente o homem do campo. As comunidades tradicionais como quilombolas e indígenas ainda adotam a prática, assim como seus antepassados faziam, na agricultura, criação de animais e até mesmo na proteção de seus territórios. No entanto, durante muito tempo os órgãos ambientais adotaram a política de “Fogo Zero”, onde fazer o uso do fogo era totalmente proibido. Ainda assim, todos os anos víamos nos noticiários incêndios gigantescos, prejuízo para a biodiversidade e para sociedade em geral. Alguma coisa não estava funcionando.

Com o tempo, percebeu-se que em algumas fitofisionomias do cerrado há um acúmulo de vegetação seca, gramíneas que crescem e morrem formando uma biomassa altamente inflamável. Com a política de “Fogo Zero”, o acúmulo desse material combustível resultava em incêndios gigantescos causados por faíscas geradas por atividades humanas ou até mesmo raios. Além disso, pesquisas indicam a importância do fogo para o cerrado como aumento da diversidade biológica e estimulo para floração e frutificação de espécies vegetais. O famoso Capim-dourado do Jalapão é um exemplo de espécie que precisa do fogo para a floração.

Alguns países como África do Sul e Austrália, que tem áreas de vegetação tipo Savana assim como o cerrado, já fazem o uso do fogo para prevenção de incêndios há algum tempo, e inspirado nessas experiências o Brasil começou a mudar a postura em relação ao fogo e adotar as metodologias utilizadas por lá. Assim começou o Manejo Integrado do Fogo, apelidado carinhosamente de MIF, nas unidades de conservação e áreas protegidas, com destaque paras as unidades do Tocantins.

“Manejo Integrado do Fogo é uma série de possíveis decisões técnicas e ações para prevenir, controlar ou usar o fogo em um território determinado”.


Myers, 2006
Foto :O Triângulo de Manejo Integrado do Fogo apresenta uma estrutura conceitual que integra as percepções das comunidades sobre o fogo e suas necessidades de usá-lo, os papéis benéficos e maléficos que o fogo pode exercer nos ecossistemas, abrangendo todos os aspectos de seu manejo (Myers 2006).

O MIF atua na prevenção, controle e combate a incêndios florestais, e para isso é preciso pensar em fogo o ano inteiro. Ainda no período chuvoso, é realizado o planejamento de queimas. A partir de imagens de satélites são elaborados mapas que apresentam as áreas com vegetação seca (combustível) que indicam risco de incêndio. Com essas informações, as equipes da brigada de incêndios das UCs conseguem montar uma estratégia para manejar essas áreas. Paralelo a isso, são realizadas reuniões nas comunidades que residem no território e é feito um calendário de queima, ou seja, o planejamento. Nessas reuniões, os comunitários indicam “onde, quando e para quê” vão utilizar o fogo para as suas mais diversas atividades, como criação de gado, roças, entre outros. Aqui temos uma grande quebra de paradigma, onde aqueles que antes eram considerados “criminosos” por fazer queimas, agora trabalham em conjunto com os órgãos ambientais para queimar.

Reunião de Planejamento de MIF. Arquivo pessoal.

A partir de abril, quando começa encerrar o período chuvoso, as queimas controladas/prescritas são iniciadas. As queimas controladas são de uso agrossilvopastoril e as queimas prescritas são as de uso conservacionista/científico. Essas queimas são realizadas geralmente de abril a meados de julho, no início da estação seca, quando as temperaturas ainda não estão muito altas e a vegetação não está tão seca. Assim é possível fazer um fogo de baixa intensidade, que queima apenas a vegetação seca e não sobe o topo das árvores.

Queima de baixa intensidade. Arquivo pessoal.

Antes de fazer a queima, a equipe verifica as condições climáticas, direção do vento, presença de animais e ninhos. Essa queima é feita em mosaicos ou parcelas, fragmentando em áreas queimadas e não queimadas. Os próprios comunitários fazem as queimas em suas áreas, assim como faziam seus pais, avós, bisavós, mas dessa vez com segurança e tranquilidade, sem precisar se esconder ou fugir. Nas áreas que não são de uso agrossilvopastoris, as equipes da UC fazem as queimas em áreas identificadas com risco de incêndio, além de aceiros negros para proteção de serras, nascentes, entre outras áreas que precisam de proteção. Aceiros negros são faixas estreitas de terra queimada para evitar que um fogo iniciado de um lado atinja o outro lado do aceiro.

Início de uma queima. Foto Daniel Andrade.

A partir de agosto, começa o período crítico, quando as temperaturas estão muito altas e a umidade relativa do ar muito baixa. Nesse período o risco do fogo sair do controle é bem maior e por isso não é indicado fazer as queimas, apenas em áreas que realmente precisam e que foram previamente manejadas para que não saia do controle. Além disso, nesse período o fogo é de alta intensidade, queimando tudo e emitindo mais material particulado na atmosfera. Em caso de incêndios, o fogo é conduzido para áreas que já foram manejadas (lembra da queima em mosaicos?) ficando mais fácil de eliminar.

No final da temporada, em meados de novembro, é chegada a hora de avaliar a estratégia utilizada durante o ano. Essa avaliação também é feita em reuniões com a comunidade, promovendo uma gestão participativa no interior e entorno da unidade de conservação.

É preciso lembrar que o MIF é adaptativo, podendo variar suas estratégias de acordo com pesquisas e resultados da avaliação. Aliás, é muito importante que pesquisas sejam incentivadas para acompanhar os efeitos do fogo em todo o ecossistema.

Os resultados já são visíveis. Na Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, o MIF começou em 2014 e já tem gerado bons resultados, como pode-se ver no gráfico abaixo, em que nos anos posteriores já houve uma diminuição significativa em relação à área de incêndio.

Fonte: A gestão do fogo na Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins (Barradas, 2017)

Além da redução de incêndios, um outro resultado importante é a melhoria na relação entre as comunidades e unidades de conservação. Os “inimigos” tornam-se parceiros, e é aberto um canal de diálogo que partindo do fogo pode se atingir as mais diversas questões de conflito na gestão do território. O uso do fogo também garante que o modo de vida tradicional dessas comunidades seja respeitado e mostra que podemos aprender muito com quem estava nesses territórios muito antes da chegada das instituições públicas.

[ATUALIZAÇÃO]

Imagem do Relatório de gestão final do ICMBio de 2020 atualizado, onde mostra que a área de incêndio continua decaindo com o MIF.

Fontes: pdfs.semanticscholar.org | Gesto | icmbio
Bibliografia: Barradas, Ana Carolina Sena. A Gestão do fogo na Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins. Rio de Janeiro, 2017.

Hellen Flávia

Tocantinense com longas raízes em todas as 08 cidades que viveu e amou. Engenheira Ambiental formada na Universidade Federal do Tocantins e Servidora Pública do Estado. Como boa aquariana, foge das obviedades e busca tentar vencer onde quase ninguém tentou. Foi assim que se encontrou no lugar mais bonito do cerrado tocantinense, em meio às dunas alaranjadas e a vida aparentemente pacata. Hoje está no Parque Estadual do Jalapão, apaixonada pelo trabalho de conservação da biodiversidade e ainda se descobriu empreendedora criando a Sempre-Viva. Contato: E-mail - ucvivoverde@gmail.com | Twitter: @HellenFlaviaaa

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