#NaõFoiAcidente – A tragédia anunciada em Minas Gerais e a negligência por parte dos órgãos, empresa e jornalismo

Você com certeza já leu em vários sites, blogs, revistas e viu na TV (o que não anda sendo muito válido) sobre o rompimento da barragem em Mariana/MG, mais especificamente em Bento Rodrigues. Claro que muitas pessoas vieram me perguntar o que eu achava, minha primeira reação era, calma, estou juntando informações para pensar em algo, afinal, é muita negligência, em vários setores, quase ninguém quer tomar a real culpa, muito se fala em valore$ enquanto o que importa é o impacto ambiental… Enfim, é um ninho de cobras este caso!

Mas para ajudar um pouco, resolvi fazer um compilado de notícias que eu achei relevante e apresentar a vocês, depois vamos aos fatos!

A lama da Samarco e o jornalismo que não dá nome aos bois por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

“De um modo geral o efeito obtido no caso de Mariana é o de naturalização de uma matança e de um crime ambiental histórico. Como não houve chuvas, inventa-se um terremoto. A morte horrível de moradores e a destruição de um povoado por uma empresa ganham, no máximo, uma cobertura similar à das tragédias em São Luís do Paraitinga ou Petrópolis (fruto também da especulação imobiliária), ignorando a cadeia de sócios, os interesses políticos em torno das mineradoras ou o risco estrutural que esse tipo de exploração impõe ao ambiente, aos trabalhadores e vizinhos, bola pra frente que em janeiro teremos “outras enchentes”. Como se fizesse parte do sistema ser soterrado por uma lama tóxica enquanto se planta alface.”

Por que é impossível calar diante de mais um desastre induzido? por Lou-ann Kleppa

“Talvez alguém se pergunte por que há tanto investimento em energia e mineração e por que o senso comum acha que ambos estão a serviço do progresso do país. A imensa maioria da energia produzida nos rios brasileiros serve à indústria eletro-intensiva (que prioritariamente produz alumínio para exportação). A imensa maioria dos minérios extraídos nas montanhas brasileiras é exportada. A população perde seus rios e montanhas – e o acesso à água. A Samarco, por exemplo, possui 3 minerodutos paralelos que levam polpa de ferro de Mariana (MG) a Anchieta (ES), gastando 4,39 metros cúbicos de água por hora. Essa água toda, retirada dos rios de Minas Gerais – estado que atualmente está com níveis de umidade relativa do ar alarmantes – conduz o minério e é descartada no mar.”

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“Onda de lama” deve se espalhar e atingir cerca de 10 mil km² do litoral capixaba por Lucas Henrique Pisa

“Esta sopa de lama tóxica que desce no Rio Doce e descerá por alguns anos toda vez que houver chuvas fortes e irá para a região litorânea do ES, espalhando-se por uns 3.000 km2 no litoral norte e uns 7000 km2 no litoral ao sul”

Lama contaminada tem concentração de metais até 1.300.000% acima do normal por Enzo Menezes

“A água coletada pelo SAAE (Serviço de Água e Esgoto) de Valadares aponta um índice de ferro 1.366.666% acima do tolerável para tratamento – um milhão e trezentos mil por cento além do recomendado, segundo relatório enviado à reportagem do R7. Os níveis de manganês, metal tóxico, superam o tolerável em 118.000%, enquanto o alumínio estava presente com concentração 645.000% maior do que o possível para tratamento e distribuição aos moradores. As alterações foram sentidas a partir de 8h, enquanto o pico de lama tóxica ocorreu às 14h no rio Doce.”

Minas Gerais tem 42 barragens sem estabilidade garantida por Patrícia Campos Mello

Das 735 barragens existentes em Minas Gerais, 42 não têm garantia de estabilidade, segundo relatório da Fundação Estadual de Meio Ambiente de 2014, o mais recente disponível. Apesar dos riscos, essas barragens podem continuar em funcionamento.De acordo com o levantamento, em 29 dessas barragens não foi possível garantir a estabilidade e, em 13, não foi finalizada a auditoria por falta de documentos. “É um absurdo. Se as barragens não são consideradas estáveis pelos auditores, como é que elas têm permissão para continuar funcionando?”, pergunta Maria Dalce Ricas, superintendente da Associação Mineira de Defesa do Ambiente.

Deu para entender um pouco a situação, não é? Para quem não sabe, existe uma Lei que rege pela segurança das barragens, que é a Lei Nº 12.334, de 20 de setembro de 2010, que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens destinadas à acumulação de água para quaisquer usos, à disposição final ou temporária de rejeitos e à acumulação de resíduos industriais, cria o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens.

Esta lei 12.334 é muito clara ou deveria ser, pois o PNSB tem por objetivos, garantir a observância de padrões de segurança de barragens de maneira a reduzir a possibilidade de acidente e suas consequências; regulamentar as ações de segurança a serem adotadas nas fases de planejamento, projeto, construção, primeiro enchimento e primeiro vertimento, operação, desativação e de usos futuros de barragens em todo o território nacional; promover o monitoramento e o acompanhamento das ações de segurança empregadas pelos responsáveis por barragens; criar condições para que se amplie o universo de controle de barragens pelo poder público, com base na fiscalização, orientação e correção das ações de segurança; coligir informações que subsidiem o gerenciamento da segurança de barragens pelos governos; estabelecer conformidades de natureza técnica que permitam a avaliação da adequação aos parâmetros estabelecidos pelo poder público; fomentar a cultura de segurança de barragens e gestão de riscos.

E ainda dá a responsabilidade, a fiscalização da segurança de barragens caberá, sem prejuízo das ações fiscalizatórias dos órgãos ambientais integrantes do Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama): à entidade que outorgou o direito de uso dos recursos hídricos, observado o domínio do corpo hídrico, quando o objeto for de acumulação de água, exceto para fins de aproveitamento hidrelétrico; à entidade que concedeu ou autorizou o uso do potencial hidráulico, quando se tratar de uso preponderante para fins de geração hidrelétrica; à entidade outorgante de direitos minerários para fins de disposição final ou temporária de rejeitos; à entidade que forneceu a licença ambiental de instalação e operação para fins de disposição de resíduos industriais.

E mais, com vários “instrumentos” de avaliação e fiscalização: o sistema de classificação de barragens por categoria de risco e por dano potencial associado; o Plano de Segurança de Barragem; o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB); o Sistema Nacional de Informações sobre o Meio Ambiente (Sinima); o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa Ambiental; o Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras ou Utilizadoras de Recursos Ambientais; o Relatório de Segurança de Barragens.

Aí, sabe o que eu acho?? Muita sigla (órgãos e entidades) para pouca execução! Mas um texto que me interessou muito, foi este abaixo que li no Facebook:

“Infelizmente, o BRASIL ainda não sabe o que está acontecendo aqui em Minas Gerais. Os veículos de “des-informação” continuam omitindo fatos e números importantes para amenizar a tragédia. Sugiro que AQUELES QUE TÊM AMIGOS VIRTUAIS EM OUTRAS CIDADES, ESTADOS E PAÍSES, informem melhor e alertem o Brasil de que são centenas de milhares de pessoas afetadas pelo fato. Toda a economia dos municípios está comprometida. As escolas suspenderam as aulas, a agricultura está comprometida, porque não tem chuva, o comercio já quase parou, pois não tem água, nem para os banheiros; bares e restaurantes estão adotando material descartável para servirem, mas não existem panelas descartáveis e essas precisam ser lavadas. A construção civil também foi afetada; não há água para o banho das pessoas. Hospitais e asilos, presídios e serviços essenciais estão sendo abastecidos por caminhões pipa, que precisam ir a outros municípios para se abastecerem de água, o que está onerando os cofres públicos com o alto consumo de combustível – isso quando conseguem passar pelas estradas bloqueadas pela manifestação de caminhoneiros. O Rio Doce, um dos MAIORES DO BRASIL, está morto! As populações, desde Mariana-MG até Linhares-ES (e depois no Oceano Atlântico) estão sofrendo as consequências do que talvez seja a maior tragédia ambiental, ecológica, econômica, hídrica, já ocorrida no pais. E as consequências serão sentidas por muitas décadas. Somente em Governador Valadares são 260 mil pessoas afetadas. Alguém já imaginou uma cidade de 260mil pessoas totalmente sem água? E o pior: a água está correndo no Rio Doce, mas completamente envenenada por arsênio, mercúrio e outros metais.
Todos – eu disse todos – os peixes morreram envenenados e já se pode sentir o “cheiro” a kms de distância. Esse é o quadro que o BRASIL precisa saber. Divulguem para que outras tragédias possam ser evitadas. Talvez a próxima seja a dos lixões, ou das enormes pastagens que avançam derrubando as florestas, ou quem sabe, as imensas lavouras de soja??? Informem, manifestem a indignação pacífica, sem revolta ou violência. Chega de violência contra povo Brasileiro, menos ganância, é o que precisamos. Obrigado por me ler! É apenas o desabafo de um Valadarense, mineiro, brasileiro e ser humano.”  Por Felipe Marques 

O rompimento da barragem em Mariana foi resultado de negligência, isto já etá mais que confirmado, até mesmo o MP de MG já disse isto.

Finalizo este texto com uma indagação do Alceu Castilho: “Existem movimentos sociais específicos de atingidos pela mineração, ou atingidos pelas barragens. Até mesmo de atingidos pela Vale. Por que não se dá voz a essas pessoas? Se nem após os desastres isso acontece, o que se dirá do dia a dia? Porque os cadernos e até revistas especializadas são de ‘negócios’, como se esses negócios pudessem pairar (numa sociedade democrática) acima dos interesses dos cidadãos. Por que os calam? Por que essa censura? Por que a destruição de uma comunidade inteira e de um ecossistema não comovem? Porque esse jornalismo é situacionista, economicamente situacionista. Torce para os vencedores.”

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Ainda bem que ainda temos os blogueiros para mostrarem outras vertentes né? 🙂 E você, concorda com algo? O que acha? Mora próximo à alguma barragem? Já procurou ou foi procurado por algum órgão público ou empresa responsável??? Acho difícil… Mas fala ai!

 

Daiane Santana

Daiane Santana é a idealizadora do #VivoVerde, mora em Palmas/TO há 15 anos e há 11 escreve neste site. Formada em Engenharia Ambiental, pela UFT – Universidade Federal do Tocantins, pós-graduanda em Gestão de Recursos Hídricos e Segurança do Trabalho. Atua como consultora nas áreas de meio ambiente, segurança do trabalho e está a disposição do mercado de trabalho. Contato: contato@vivoverde.com.br | daiane@vivoverde.com.br | Twitter - @DaianeVV | Instagram: @DaianeVV

2 comentários em “#NaõFoiAcidente – A tragédia anunciada em Minas Gerais e a negligência por parte dos órgãos, empresa e jornalismo

  • 16 de novembro de 2015 em 23:32
    Permalink

    O Vale do Rio Doce deverá demorar algum tempo para se
    recuperar dessa tragédia nacional.Ou seja,entre as fórmulas
    para voltar ao que era antes,é verdade,é recuperar as ma-
    tas ciliares e procederem uma dragagem muito grande em
    em todo o percurso do Vale do Rio Doce durante anos .

  • 24 de novembro de 2015 em 15:50
    Permalink

    Parabéns Daiane.
    Como conversamos ontem, a multa para a principal responsável (SAMARCO) deveria ser altissssssssssssima a ponto de quase fechar a empresa.

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