Quando a índia moça vira mulher

4434562774_823fc047d3_o Segundo o mito, no princípio os índios Karajá viviam no fundo das águas do rio Araguaia com os peixes e tartarugas. Naquele lugar todos viviam eternamente com saúde plena, não existiam grupos familiares e entre homens e mulheres não havia relações sexuais. Apesar disso, a vida era muito monótona e cansativa.

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Num certo dia, eles resolveram sair das águas e subir ao nível terrestre em que vivemos e passaram a viver em sociedade. Desde então os Karajá habitam inúmeras aldeias às margens do rio Araguaia.

Em um passado distante, havia numa aldeia uma moça virgem filha de um pai extremamente enciumado. O ciúme desse velho índio Karajá era justificado por ser a sua filha a mais bela e atraente mulher de todas as aldeias.
Tentando proteger sua filha de uma vida cheia de problemas ele determina que aquele que quiser desposá-la deve mostrar seu valor, cumprindo uma série de provas de valentia, coragem e determinação.
Observando as qualidades da jovem moça apareceram inúmeros pretendentes e o pai, pouco a pouco, foi eliminado um a um, através da exigência do cumprimento de várias provas. Entre as provas exigidas tinham-se: a coleta de mel de abelhas venenosas, a pescaria de peixes nobres e raros, caçadas em meio à floresta, demonstrações de força e resistência etc.
No final de um longo período, um jovem índio destemido consegue cumprir todas as provas impostas pelo pai da moça, de forma que ele autoriza o casamento. Mas mal sabia ele que o futuro sogro prepararia um último teste. O sogro capturou um punhado de piranhas vermelhas e colocou dentro do útero da filha.
O jovem índio duvida do fato, mas sabendo da agressividade das piranhas não resolve arriscar. Para comprovar se as piranhas estavam mesmo ali ele resolve pedir ajuda ao macaco-prego. Então ele oferece ao macaco-prego a possibilidade de deflorar a moça. E o macaco-prego, prontamente se dispõe a fazê-lo. Logo que tenta concluir o fato, aquele símio sofre uma mordida voraz, acabando por perder o prepúcio. Isso justifica a ausência do prepúcio entre os macacos-prego desde então.

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Após ter se certificado de que as piranhas estavam ali, o jovem índio resolve buscar conselho com um amigo que o orienta a usar uma planta especial para matar as ferozes piranhas.
Depois de um longo esforço ele consegue matar quase todas elas, de forma que fica restando apenas uma pequenina no útero da moça.
Essa piranha ainda hoje está presente no útero de todas as mulheres e periodicamente fica agitada. Quando isso ocorre, ela morde as paredes do útero causando dores e sangramento na mulher, ocasionando assim a menstruação.
Durante a menstruação os homens não têm relações sexuais com suas mulheres, pois podem ser atacados pela pequena piranha.
Nesse período também, as mulheres não podem consumir alimentos de origem animal, especialmente as carnes, pois a presença do sangue nas carnes estimula a agressividade da piranha ocasionando inúmeros problemas de saúde.
Para muitos de nós acostumados com informações técnicas e científicas cheias de embasamentos teóricos complexos podemos achar uma bobagem, e até mesmo absurdo, tal explicação para a origem da menstruação. Mas conforme sabemos os mitos e as lendas estão repletas de valores intrínsecos que podem passar despercebidos para aqueles que não conhecem bem a realidade de uma certa comunidade.
O mais curioso desse mito é que ele não busca somente explicar a origem de um fenômeno fisiológico, mas aponta inúmeros elementos que justificam as relações e o modo de vida dos Karajá.
A História da sociedade, o casamento e as relações sexuais entre os Karajá tiveram início com a aliança firmada entre o marido e o sogro. Desde então, o genro deve pagar um preço ao sogro pela esposa desejada. E o futuro marido deve deixar a casa de seus pais e passar a morar na casa do sogro. Esse aspecto é importante, pois diferencia os Karajá de inúmeros grupos indígenas e de outros povos. No nosso caso, a mulher é quem geralmente deixa a casa dos pais e passa a integrar a família do futuro marido. Um forte reflexo disso é que a mulher passa a carregar o sobrenome do marido, diferentemente dos genros Karajá que passam a integrar a família dos sogros.
Ao conhecermos os valores e costumes de outros povos podemos refletir sobre o nosso próprio modo de vida e passar a respeitar melhor aqueles que são diferentes de nós.

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Giovanni Salera Júnior é Mestre em Ciências do Ambiente e Especialista em Direito Ambiental. Atualmente é Analista Ambiental do Governo Federal.

Maiores informações em: recanto das letras

Curriculum Vitae: https://lattes.cnpq.br/9410800331827187

5 comentários em “Quando a índia moça vira mulher

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