A capacidade da Terra de restabelecer seu equilíbrio está comprometida

No decorrer dos últimos 2,6 milhões de anos, o clima da Terra tem passado por ciclos repetidos de frio intenso – “eras glaciais”- com duração média de até 100.000 anos, intercalados por tempos interglaciais relativamente amenos, de curta duração, em um dos quais aparentemente nos encontramos.

A causa dessas variações ambientais é essencialmente astronômica, e ignora-se o que o futuro distante nos reserva. Mas de qualquer forma, desde o fim da última era glacial, há cerca de 11.700 anos, tem sido mantida certa estabilidade climática global, com alterações ambientais dentro de limites de variação, que viabilizaram o surgimento da civilização e seu crescimento cada vez mais acelerado.

Nos últimos 200 anos, porém, após o início da Revolução Industrial, as consequências das ações humanas vêm ultrapassando alguns desses limites, pondo em risco sua própria existência, pelo menos sob a forma que conhecemos.

Atualmente, estudos apontam nove processos biofisicoquímicos, naturais ou não, que estão em situações de risco, tornando-se necessário o estabelecimento de limites às ações humanas que os afetam. São eles: mudanças climáticas, ritmo da perda de diversidade biológica em terra e no mar, interferência com os ciclos naturais de nitrogênio e fósforo, redução da camada de ozônio, uso dos recursos globais de água doce, poluição química, quantidade dos aerossois na atmosfera, mudanças na utilização das terras, e acidificação dos mares.

A conclusão do estudo indica que as conseqüências das ações humanas se encontram perto de alcançar os limites aceitáveis em quatro processos: uso dos recursos globais de água doce, mudanças na utilização das terras, acidificação dos mares e interferência no ciclo natural de fósforo. A análise mostra ainda que em três outros processos – ritmo da perda de diversidade biológica, mudanças climáticas e interferência no ciclo natural de nitrogênio – os limites aceitáveis da interferência humana já foram ultrapassados.
A perda de diversidade biológica, mesmo considerando que a extinção de espécies é um processo natural, foi largamente acelerada pelas atividades humanas. Hoje o ritmo estimado de extinções é de 100 a 1.000 vezes maior do que um fenômeno natural.
Quanto às mudanças climáticas, elas são hoje uma indiscutível realidade e, quanto a isto, já se evidenciam indícios de perda da estabilidade global.

As alterações do ciclo natural do nitrogênio se devem em maior escala às práticas da moderna agricultura. As atividades humanas, com o uso exagerado de fertilizantes e o cultivo em larga escala de plantas leguminosas, como a soja, poluem os solos, a água doce, os mares e a atmosfera.

É ainda, de suma importância, saber que os processos citados não devem ser considerados isoladamente. Existem efeitos sinergéticos e, se o limite é excedido em um deles, há acréscimo em situações de risco para outros, podendo sê-lo em âmbito mundial.

A tentativa pioneira de quantificar os limites de segurança, para que seja mantida relativa estabilidade ambiental, que vem se estendendo desde a última era glacial, é de extrema relevância. Além disso, é potencial fonte de informação para os tomadores de decisões nos mais altos níveis de direção dos diferentes países, evidenciando-lhes a gravidade da situação, a magnitude das ações de precaução necessárias e os rumos a tomar para que se revertam as tendências identificadas, e não se atinja um grau de degradação ambiental potencialmente catastrófico e sem retorno.

 

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