Desacortinar a ideia do sol

Hoje vamos falar um pouco sobre o meu métier: Conforto Ambiental.

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O conforto ambiental – disciplina que leciono na universidade – ao meu ver, é a mais interdisciplinar do curso e perpassa os conhecimentos em física, química, biologia, matemática, história e geografia já estudados no Ensino Fundamental e Médio, aliados e aplicados ao conhecimentos em Arquitetura e Urbanismo, ou seja, uma salada de informações necessários ao bom projeto de arquitetura.

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Um dos preceitos básicos de conforto térmico é a utilização correta da Geometria Solar e das estratégias de proteção solar, em outras palavras: pode onde o sol percorre na edificação.

Pois então, atualmente utilizamos as cortinas e/ou persianas como elemento de proteção solar interna de vários tipos, modelos e texturas em busca de proteção das aberturas (janelas, portas e outros elementos similares), além de diminuir o ofuscamento causado pela radiação e proporcionar a segurança dos ambientes internos. Mas beleza Thyago isso eu já sei, e de onde surgiu a ideia de acortinar os espaços?

Pode-se dizer que com os povos nômades o hábito de vedar as aberturas com pele de animais pode ser o “início” das cortinas. Desde a Grécia antiga até o período Medieval utilizava-se para a ornamentação das paredes e não nas aberturas e foi no Renascimento que o ato de cobrir as janelas pela realeza foi amplamente difundido sendo sinônimo de poder e riqueza da época.

Apesar da cortina ser um elemento bastante difundido como “único” meio de proteção das aberturas (junto com persiana) ela não é a única e muito se deve por um fator básico: a falta do planejamento da habitação em virtude da posição solar e de convencer o cliente de que tem elemento um pouco mais caro, contudo mais duradouro e eficiente que o tecido.

Se voltamos ao Modernismo na arquitetura, percebe0se a utilização dos brise-soleil ou no popular o “brise” que é utilizado para as proteções das aberturas com vistas a evitar a incidência direta da luz solar, o ofuscamento e controlar a radiação que entra pelas aberturas para auxiliar na proteção, vez que havia o uso de extensos panos de vidro expostos na fachada. Se você já foi a Brasília vai perceber em todo a eixo monumental sua utilização em larga escala: Congresso Nacional, Ministérios, Anexos do Ministério dentre outros. Mas em Palmas você também pode achar: Tribunal de Contas do Estado do Tocantins, Ministério Público Estadual, Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins, Edifício dos Buritis, Colégio Militar de Palmas, Escolas Municipais de Palmas, Justiça Federal Seção Tocantins, Assembleia Legislativa são alguns dos exemplos locais e de fácil acesso externo.

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Fonte: Gazeta do Cerrado, 2018

Contudo, para saber quando eu devo proteger com eficiência, qual o melhor horário para o bloqueio solar, bem como a posição para onde a janela/fachada/abertura se encontra precisa-se trabalhar com as cartas e máscaras solares próprias de cada latitude ou ainda com o uso de softwares específicos como exemplo o Ecotect, entretanto, alguns profissionais insistem em não fazer um cálculo mínimo para as proteções e inserir cortinas, persianas ou pior, toldos para a proteção do espaço. 

Em um grupo de pesquisadores de conforto da UFMG, o qual faço parte, coloquei em pauta esta discussão sobre cortinas e brise e o que resultou foi: a) dificuldade no entendimento na aplicabilidade do brise quando da vida profissional; b) cortina é mais barato e tem o comodismo de estar lá de tamanho e tipos variados e c) os cliente acham que brise atrapalha a visão. Entretanto, nenhuma tipologia de cortina/vidro de alta performance tem a mesma equivalência que a proteção/sombreamento total da abertura.

Instituto do Mundo Árabe – Abu Dhabi – Emirados Árabes Unidos – Arquiteto Jean Nouvel

Um ponto importante: enquanto no brise deixa-se entrar somente a iluminação e a radiação direta é bloqueada do lado de fora da edificação, a cortina não só deixa passar a radiação direta pelo vidro, como tende a aquecer o espaço porque o calor se armazena no lado de dentro da edificação criando uma barreira.

E fica a pergunta no ar: Até quando vamos colocar cortina, inserir papel alumínio com isopor ou papel madeira nas aberturas para bloquear a radiação, sendo que há alternativas mais duráveis e com estudo técnico para auxiliar no melhor projeto do espaço construído?

Esse assunto é extenso e interdisciplinar!
No mais até a próxima com novas reflexões sobre o papel da arquitetura!
Até lá!

Thyago Phellip Freitas

Thyago Phellip Freitas é arquiteto e Urbanista pela UNAMA, Mestre em Ciências do Ambiente pela UFT e atualmente fazendo Doutorado em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável pela UFMG. Arquiteto e Urbanista na Secretaria de Estado da Edução, além de conciliar a vida de Professor de Ensino Superior e Ator. Como eu arranjo tempo para isso tudo? Nem eu sei. Apaixonado por lecionar arquitetura, além de realizar interdisciplinaridades temáticas me fascinam sobre a possibilidade de abordar arquitetura e suas nuances por vezes obvias e em outras sutis! #focanaAU. Contato: E-mail - arquitetura@vivoverde.com.br | Twitter: thyagofreitas

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