Bolsonaro mente sobre crise amazônica: povos indígenas estão cercados por Covid-19, incêndios, violência e seca

Líderes indígenas, religiosos e sociais disseram que o discurso de Bolsonaro na AGNU é cheio de mentiras e
fecha os olhos ao desastre humanitário que está se desenrolando na Amazônia.

Cultura Brasileira no Queens, NY Por instagram.com/deolho_narua – Arte: instagram.com/titoferrara

Com mais de 1.749 mortes e 58.000 casos afetando 239 povos da bacia amazônica, líderes indígenas, líderes sociais e religiosos criticaram a intervenção do presidente brasileiro Jair Bolsonaro na 75ª Assembleia Geral da ONU. Eles clamam também aos governos e organizações internacionais que dêem uma resposta mais forte e robusta aos povos amazônicos e evitem um “ponto sem volta” na Amazônia, o que terá enormes implicações para o clima global e a segurança alimentar.

José Gregório Díaz Mirabal, coordenador geral da Coordenação de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica
(COICA), leu uma carta dirigida aos chefes de estado que se reunirão virtualmente no dia 30 de setembro em cúpula
organizada pela ONU. Nesta carta, ele pede que o acordo climático de Paris seja revivido; que acordos comerciais
extrativistas, como o Acordo do Mercosul e o Acordo União Européia-Mercosul, sejam interrompidos; e que os
bancos internacionais parem de financiar a destruição da Amazônia.

O cardeal Cláudio Hummes, da OFM (Ordem dos Frades Menores), presidente da REPAM (Rede Eclesial
Panamazônica) e da Comissão Episcopal Amazônica do Brasil, disse que “a pandemia nos mostra como nunca
quão imoral são as desigualdades” e que a idéia de “uma nova normalidade que tenha como base o diálogo
confronta os interesses dos poderosos diante da solidão dos rejeitados.” Hummes disse que “uma Igreja que está
indignada e levanta sua voz em face do etnocídio e ecocídio, está indignada também com aqueles que decidem,
diante da crise da Covid-19, colocar as empresas globais como as principais vozes a serem ouvidas.”

Oscar Soria, Diretor de Campanhas do movimento social Avaaz, responsável pela resposta humanitária da
organização à crise da Covid-19, disse que a abordagem de Bolsonaro à crise da Covid-19 em terras indígenas “é
quase nula” e questionou a veracidade de seu discurso. Ao apresentar novos dados sobre a evolução da pandemia
e a assistência humanitária no local, o diretor da Avaaz disse: “As mentiras de Bolsonaro na ONU apenas adicionam
ainda mais combustível ao desastre humanitário que se desenrola na Amazônia, ao invés de aproveitar para fazer
um convite necessário para a comunidade internacional contribuir com assistência urgente. Foi uma oportunidade
perdida”. Soria também disse: “estamos testemunhando um crime sem precedentes, onde os países renunciam às
suas responsabilidades fundamentais de cuidar de sua população, deixando a pandemia governar milhares de vidas
e nações inteiras. Todos os países devem aumentar consideravelmente suas contribuições financeiras para ajudar
nesta emergência, não apenas por um imperativo moral, mas com base em nossa necessidade comum por
segurança climática, alimentar e ambiental”.

Sonia Guajajara, presidente da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), disse: “O discurso de Bolsonaro na
UNGA é uma mentira, ele disse que os povos indígenas são os responsáveis pelas queimadas no Brasil. Isso não é
verdade e nós rejeitamos essa alegação. Precisamos denunciar esta catástrofe política que destrói o meio ambiente
e nosso futuro. O mundo inteiro é testemunha desse crime, que é grande demais para ser escondido. Ao invés de
atacar as pessoas que trabalham para proteger o meio ambiente, as autoridades brasileiras devem agora garantir os
direitos dos povos indígenas, cumprir seus juramentos constitucionais e apresentar à nação um plano para enfrentar os incêndios que afligem o país. E assim proteger, ainda, a economia e a reputação nacional.”

Durante a coletiva de imprensa foi apresentada uma análise comparativa de dois estudos relacionados à
regularização fundiária na região amazônica que concluíram que dependendo de cada país, entre 10% a 93% das
terras indígenas, comunidades locais, tradicionais e afrodescendentes ainda não são reconhecidas por grande parte
dos países da região, sendo não reconhecidos pelo menos 90 milhões de hectares. A análise comparativa também
indica que todos esses territórios são áreas imprescindíveis para a biodiversidade e estão em bom estado de
conservação. A análise é baseada em dois relatórios diferentes e não relacionados mas publicados em um intervalo
de uma semana entre eles durante este mês, pela Resources and Rights Initiative (RRI: veja o relatório completo) e a Global Safety Net (GSN: veja o relatório completo), ambos em inglês.

Daiane Santana

Daiane Santana é a idealizadora do Portal VivoVerde, nascida e residente de Minaçu/GO e há 12 anos escreve neste site. Formada em Engenharia Ambiental, pela UFT – Universidade Federal do Tocantins, pós-graduada em Gestão de Recursos Hídricos e Segurança do Trabalho. Atua como consultor, ministra treinamentos nas áreas de meio ambiente, segurança do trabalho e está a disposição do mercado de trabalho. Contato: contato@vivoverde.com.br | daiane@vivoverde.com.br | Twitter - @VivoVerde | Instagram: @DaianeVV | 063999990294

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