Crise hídrica brasileira X Mudanças Climáticas

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Agora que os gestores públicos e o setor elétrico descobriram as mudanças climáticas, o que eles farão? Será que os estudos do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (sigla em ingIês, IPCC), não estão claros o suficiente, quanto a recorrência dos fenômenos meteorológicos intensos e adversos no Brasil e no mundo? Ou será que os resultados foram apenas negligenciados? 

De certo, quem acredita na terra plana, em tratamento precoce para o Covid19 e tenta contestar a ciência por envios de vídeos de “pseudo médicos e cientistas” pelo WhatsApp teve que aceitar este argumento, provavelmente, por falta de outros vilões mais sólidos ou até mesmo para não expor ”outras fragilidades” ou até mesmo omissões na gestão dos recursos hídricos e na política ambiental governamental.

Vários foram os indicados para vilão da crise hídrica 2021: as mudanças climáticas, o fenômeno meteorológico La Niña e por último o desmatamento da Amazônia. Claro que estes dois últimos indicados pela academia e pelo voto popular. É notório que o fenômeno meteorológico La Niña atuou e produziu a diminuição das chuvas em várias bacias hidrográficas do país. Era fenômeno conhecido e os resultados já esperados. E não lhe cabia o papel de vilão principal. Por mérito, levou como o melhor coadjuvante.

Quanto ao desmatamento da Amazônia, este teve que ser esquecido, já deu problema com o mundo (na cúpula do clima) e até mesmo já derrubou um ministro do meio ambiente. E para muitos, não faz muito sentido relacionar a Amazônia com a atual crise hídrica no Sudeste, não é mesmo?  Quais serão os próximos passos? Queremos saber!

Em primeiro lugar, precisamos entender que a crise hídrica é apenas a ponta do iceberg dos nossos problemas ambientais que estarão por vir. Em verdade, ao longo dos últimos, os períodos chuvosos têm trazido muitas irregularidades, má distribuição de chuvas e os acumulados totais não tem sido suficientes para encher os principais reservatórios e atender a demanda na geração de energia elétrica nos longos períodos de estiagens. Ligeiro engano, é imaginar que a simples presença de intensos fenômenos meteorológicos recorrentes no período chuvoso são garantias para manter as regularidades dos bons volumes de águas nos reservatórios.

Também não podemos perder de vistas o avanço da fronteira agrícola, o desmatamento da vegetação nativa, o aumento da demanda de água (atualmente, muitas bacias hidrográficas já se encontram em conflito hídrico) e por último, o aumento das áreas irrigadas para a produção de alimentos no Brasil. Sim, existe uma projeção para aumento de áreas irrigadas de 76% até o ano de 2040, conforme o Atlas da Irrigação da Agência Nacional de Águas (ANA, 2021).

E as coincidências continuam acontecendo. Segundo os dados do MapBiomas, o bioma cerrado vem apresentando uma redução da vegetação nativa ao longo dos últimos 34 anos. E pergunto, em qual bioma está localizado os principais reservatórios do país? Bingo!

Precisamos pensar também na variável “Uso e ocupação do Solo” do ponto de vista geográfico, ambiental, agronômico e meteorológico como variável de extrema importância para evitar as futuras crises hídricas, bem como, a sustentabilidade do setor da energia elétrica e da agricultura. Com a redução da vegetação nativa em todo o Brasil a passos largos, a produção de alimentos ainda será sustentável? E a produção das águas? Sim, não podemos esquecer no ciclo hidrológico.

É eminente um entendimento mais amplo para contextualizar a crise hídrica brasileira. Mudanças climáticas é um bom começo. O que nos falta ainda? Fica o convite para refletir e comentar.

José Luiz Cabral

Atualmente é professor/pesquisador da Universidade Estadual do Tocantins (UNITINS). Tem experiência em meteorologia e recursos hídricos, atuando nas áreas da: meteorologia sinótica, agrometeorologia (crescimento de desenvolvimento de culturas), climatologia, mudanças climáticas e fontes renováveis de energia (eólica, solar, biomassa). Condecorado com a Medalha de Mérito da Defesa Civil, outorga pelo Governo do Estado do Tocantins. Consultor em projetos de: Meteorologia, Energia Solar, Hidrometria e Agrometeorologia. Tem expertise em novas tecnologias e empreendedorismo digital. Contato: E-mail - meteorologia@vivoverde.com.br | Twitter - @nemetrh

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