Parte I: A meteorologia e as novas mídias digitais

Sendo a Meteorologia  a ciência que estuda a atmosfera da Terra, as causas das variações do clima e seus fenômenos naturais,  tem sua base no conhecimento cientifico e das observações instrumentais e sensoriais da atmosfera. Uma área  de conhecimento  dotada de diferentes equipamentos e sensores para realizar o monitoramento em superfície e em altitude. Seus produtos mais conhecidos são as previsões de tempo, que resumem o enorme esforço desprendido para observar, coletar, modelar e interpretar os fenômenos atmosféricos.  

Indiscutivelmente e inegável, é a contribuição da expansão da internet e das novas mídias digitais para a popularização da ciência meteorológica e das previsões de tempo.  

Diante da atual realidade que tange as novas tecnologias, dos enormes avanços da inteligência artificial, das comodidades da Internet das Coisas (IoT) e da velocidade da informação gerada, se faz necessário discutir também, como estas informações são utilizadas e difundidas para todos os setores da sociedade.

Os centros regionais de meteorologia e os Institutos brasileiros têm disponibilizados dados e informações meteorológicas nos padrões internacionais, de forma mais rápida, em curtos intervalos de tempo aproveitando-se dos bons serviços da banda larga proporcionado pelos canais sofisticados de telecomunicações.

Somando-se a isso, mais um volume incalculável e crescente de dados em superfície e altitude, produtos diferentes de inúmeros modelos de previsão de tempo e clima em diferentes escalas e imagens oriundas dos países que estão na vanguarda da tecnologia.

Ufa!! São muitos dados …

Graças a toda essa facilidade o acesso à informação meteorológica tem se tornando orgânica. Mas, será que é bem utilizada?

A cultura da previsão meteorológica foi recém-introduzida na sociedade brasileira, em verdade em meados da década de 90. O jornalismo televisivo no horário nobre foi o responsável pela primeira batalha desta popularização. Conseguiu vencer barreiras e o ceticismo da imprensa brasileira. E daí, a meteorologia conquistou novos espaços midiáticos em todos os noticiários, com bons gráficos, bons formatos e principalmente, com a duração do “quadro” da previsão do tempo. Moços e Moças do tempo desfilaram simpatias Brasil a fora. Questiono-me de que outra maneira iriamos conseguir difundir a ciência meteorológica?

Retornando, a minha primeira pergunta acima compartilho de uma constante preocupação deste acesso ilimitado das informações meteorológicas. Que é a viralização de Fake News, interpretações equivocadas e alarmistas por canais no Youtube e grupos de Whatapps.

Permitam-me fazer um registro muito importante, que é para falar de uma legião de apaixonados e aficcionados pela ciência meteorológica que, monitoram, noticiam, coletam dados de instrumentos portáteis e encaram esta ciência como um belo hobby.

Separado o joio do trigo, por vezes más interpretações e informações desencontradas tem causado pânicos, espantos e perplexidades por partes dos profissionais, que assistem atônicos tamanhas suposições e previsões dignas de personagem como da novela “Astro”, o famoso   Herculano Quintanilha e dos dramalhões mexicanos.

As informações são propagadas por canais no Youtube (numerosos, que se diga de passagem), onde mais assusta do que instrui e informa.

Bem provável, pelo simples ímpeto de ajudar e contribuir com a “sociedade” e não menos por um “like”. Em alguns casos, o benefício da dúvida, um dos princípios fundamentais do direito, o princípio do in dubio por reo.

 Não obstante, as novas mídias tecnológicas têm impulsionado e fortalecido pelo menos mais duas modalidades de operadores da ciência meteorológica: o “guru meteorologista” geralmente, formado em outra profissão de nível superior, de áreas correlatas,  que opera à revelia da lei; e o “caçador de like meteorológico”, esse último o mais catastrofista, sem profissão definida, dono de canais do Youtube, que realizam “lives” atualizando sobre qualquer fenômeno atmosférico (corriqueiros e bens comuns dos períodos chuvosos). Não se limitam apenas a ciência meteorológica ou a seu país de origem. Produzindo comparações e interdisciplinares das mais complexas, tais como: com tsunami, abalos sísmicos, furações, tornados, erupções vulcânicas. Quanto mais complexo, melhor para ele!  

Porém é o  caçador de “likes” que nos preocupa! Que por vezes, de forma irresponsável se apropria de uma informação gratuita, verídica e séria, que tem o poder de salvar vidas e por que não, o de facilitar o trânsito nos dias de temporais, das vias já congestionadas dos grandes centros populacionais urbanos. Como também, tem o poder de causar histerias coletivas pelo mau uso da informação.

Torna-se necessário entender que por mais “confiança” que se tenha em um determinado modelo matemático de previsão de tempo, ainda é obrigatoriamente, aprender e entender sobre as limitações dos mesmos, da sua abrangência de atuação e das suas devidas atualizações. Não menos importante, a sua devida interpretação deve ser baseada no conhecimento técnico científico.

Saídas de modelos matemáticos de previsão de tempo, coloridas, bem diagramadas, ícones ilustrados, dinâmicos e altamente intuitivos têm possibilitado inferências pautadas no senso comum ou pelo simples empirismo.

Ora, que por mais que entenda de alguns mecanismos da atmosfera de onde você viva, não te faz um especialista formal. A habilitação é necessária conforme a lei que regulamenta a profissão (LEI Nº 6.835, DE 14 DE OUTUBRO DE 1980).  Configura crime previsto na legislação brasileira, o exercício ilegal da profissão, tipificada como crime de contravenção penal, (art. 47 da Lei das Contravenções Penais), ainda que muitos não se atentem para isso, talvez por considerar a previsão meteorológica como algo trivial.

Como profissional da área, vejo de forma positiva o acesso das informações meteorológicas, acredito ser muito importante para a difusão do conhecimento e do fortalecimento da profissão. Há de considerar também, um ganho significativo e expressivo da ciência atmosférica diante dos contornos coloridos e dos detalhes nunca antes imaginados em uma “carta sinótica” do século XXI.  

Continua…

Até breve!!

Luiz Cabral

Atualmente é professor/pesquisador da Universidade Estadual do Tocantins (UNITINS). Tem experiência em meteorologia e recursos hídricos, atuando nas áreas da: meteorologia sinótica, agrometeorologia (crescimento de desenvolvimento de culturas), climatologia, mudanças climáticas e fontes renováveis de energia (eólica, solar, biomassa). Condecorado com a Medalha de Mérito da Defesa Civil, outorga pelo Governo do Estado do Tocantins. Consultor em projetos de: Meteorologia, Energia Solar, Hidrometria e Agrometeorologia. Tem expertise em novas tecnologias e empreendedorismo digital. Contato: E-mail - meteorologia@vivoverde.com.br | Twitter - @nemetrh

Um comentário em “Parte I: A meteorologia e as novas mídias digitais

  • 21 de janeiro de 2020 em 9:58
    Permalink

    Parabéns pela excelente matéria esclarecedora e de reflexão acerca desta ciência que sempre caminha em prol da sociedade brasileira e que nestes novos tempos de médias digitais abundantes deve sempre serem usadas para o bem comum e não para degradar por assim dizer a sociedade como um todo quando se fala em “fakes”. Assim, parabéns e estamos aguardando a segunda parte

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